Inovativo por vocação: como ter a mente aberta e quebrar paradigmas vai impulsionar o futuro da saúde?

Por Mônica Amorim, Redatora na Bionexo

Seja um profissional apaixonado e inovador na saúde e acorde todos os dias frustrado.

Pode parecer um sinal para que você repense transformar esse setor mas, leia até o fim e vai descobrir o contrário 😉

É impossível falar de saúde sem falar de inovação e de como essas duas palavras há algum tempo apontam para a mesma direção. Atualmente, a tecnologia assiste a um boom de novas health techs e, o futuro para quem aposta nesse cenário, está na experiência de quem vive a saúde de dentro dela, ou seja, o foco é oferecer produtos e serviços com inovação que agregue valor e melhore todo o ecossistema de quem atua nos bastidores do segmento.

Quem já conhece as especificidades da saúde, como o Bruno Pina, atual Chief of Innovation Experience no Distrito, sabe que entrar nesse universo significa encontrar uma imensidão de lacunas para serem preenchidas pela tecnologia, mas também burocracias e um modelo de negócio resistente à mudanças. Ainda assim, o caminho é favorável e está em plena expansão, sobretudo na era do customer centric, em que o consumidor vê valor em interações cada vez mais ágeis e otimizadas. Isso significa que, se o plano é ser um profissional disruptivo e inovador na saúde, brilho no olho e persistência são características indispensáveis e que estão em alta.

Customer centric na saúde: é preciso abrir as portas e atuar em rede

Associar grandes empresas a startups recém-chegadas no mercado é um dos desafios que levou Pina a integrar o time do Distrito. Com a expansão do mercado de Corporate Venture, que conecta esses dois tipos de negócio, o baiano que causou – no mais positivo sentido do termo, durante o tempo que atuou na Astrazeneca como Diretor de Inovação, viu um meio de seguir gerando mudanças na saúde, área que ama e que o coloca no status de “rompedor de regras”, como ele mesmo se intitula.  

Para Bruno, “a relação cliente-fornecedor mudou há muito tempo. O cliente agora é parceiro e, transformar essa relação significa fazer mais do que apenas substituir o ‘provider’ por ‘partner’. É preciso abrir as portas, deixar o cara conhecer o seu negócio para juntos construírem estratégias integradas e isso ainda não está claro na saúde”.

Bruno confessa também que, “ser um inovador na saúde é frustração garantida mas, temos que ser as mentes por trás das transformações. Nunca vai ser onde você quer chegar, porém, sabendo disso, você vai ser motivado a mirar muito longe, para chegar na metade do objetivo e ir quebrando barreiras, deixando sua marca nesse setor”.

Para provar  que dá para transformar inquietação em grandes ideias e colocar a mão na massa quando o assunto é tornar a saúde um espaço aberto, batemos um papo com o Bruno Pina e, você pode conferir a entrevista completa abaixo:

#1 – Vamos começar pelo essencial: como você define inovação na saúde? 

Bruno Pina: A inovação na saúde tem vários lados mas, vou me ater aos dois principais. O primeiro é o aspecto acadêmico que entrega avanços “tangíveis” através de pesquisa e desenvolvimento, seja com medicamentos ou equipamentos que surjam no mercado. Essa evolução é constante e muito antiga, ela progride, assim como a medicina, continuamente. 

Em segundo, deve-se pensar em inovação para o paciente. Precisamos perguntar: “Como o setor da saúde se relaciona diretamente com médicos, profissionais e até gestores de empresas?”. A resposta vem com um gap que busca saídas para melhorar e maturar esse vínculo. Anos atrás, um estudo da Mckinsey categorizou a saúde como o segundo setor com menos maturidade digital, atrás apenas do setor público e isso é reflexo de um ambiente burocrático, tradicional e amplamente regulamentado. 

Ao juntar tudo isso temos a inovação que é um match entre o melhor em inovação técnica e a experiência para quem vivencia esse ecossistema. Muito se fala sobre inovação além da pílula e é isso, criar caminhos para que o impacto e a eficiência sejam realidades em toda a cadeia: hospitais, distribuidores, farmacêuticas, laboratórios e etc. Assim evidenciamos a cultura de inovação patient centric, ou, a inovação que gera resultado em quem está na ponta. 

#2 Qual o papel das grandes corporações na digitalização da saúde?

Bruno Pina: O setor da saúde é similar ao automobilístico, é como produzir um carro que  a indústria não vende direto para o  cliente final e esse é o cenário: empresas que sempre atuaram como B2B precisam oferecer uma experiência completa para se tornarem relevantes no mercado, e aí está o desafio, fazer um comércio entre empresas subir a outro nível de envolvimento com o consumidor, indo para o B2C. 

Outro desafio é entrar na cultura das grandes corporações e fazê-las entender como é vital se comunicar com o paciente. É indispensável colocar a experiência à frente de regulamentações. Se essa burocracia é um impeditivo, as empresas têm que se unir e romper o status quo, sem gerar problemas para o paciente claro, mas, tendo em mente que regras antigas não fazem jogos novos. 

Além disso, líderes da saúde tornaram-se agentes cruciais nessa evolução. É necessário abrir as portas para o mindset colaborativo. Mesmo que haja resistência na troca de informações e boas práticas na saúde, a quebra desse bloqueio é urgente. Na Astrazeneca eu era o cara que fazia as perguntas idiotas: “Por que o motoboy não pode retirar o medicamento aqui e levar direto para o cliente? Por que é preciso prolongar esse processo e encarecer o produto ao invés de entregar um produto mais barato, ainda com lucro mas, no sistema Direct to Consumer, super comum nos EUA?”.  

Por fim, é importante que grandes corporações do setor privado se empoderem da sua responsabilidade porque, se elas não se moverem como grandes dinossauros ágeis, o mercado vai sofrer pois, em algum momento alguém vai sofrer na cadeia. 

#3 Pode comentar um pouco sobre o boom de health techs surgindo atualmente?

Bruno Pina:  O crescimento que a saúde tem tido em número de startups já supera o de fintechs, isso porque o mundo das finanças evoluiu mais cedo, lá em 2011 e agora é a vez da saúde. Isso reflete a maturidade de investimentos aumentando e o número de novos negócios que, no relatório de junho do Distrito já apontava 782 startups, é muita coisa. Ainda que não tenhamos um unicórnio no Brasil, ou seja, empresas que valem mais de 1 bilhão, já vemos várias nesse caminho, a Bionexo inclusive. 

Vale destacar que de 2012 pra cá o investimento recebido nesse segmento é de meio bilhão de dólares e, metade desse valor foi investido nos últimos dois anos, é uma aceleração bem grande que mostra que o setor de saúde está bombando. 

Comecei pelos números pra falar de outro ponto importante que é a motivação. É a história do Simon Sinek, do ‘comece pelo porquê’. É preciso ter o olhar da ciência por trás, conhecer o que é homologado pela OMS para que o cliente tenha um suporte qualificado pela medicina. 

Tem que estar claro se a motivação é dinheiro ou se realmente se entende uma dor da saúde, os grandes drivers e até quais são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU que você está entregando, isso é essencial e muita gente não sabe nem o que é. Tudo isso é questão de maturidade das novas startups, de resolver o problema a curto prazo e está tudo bem. A ideia é seguir evoluindo para chegar num cenário, como o que vemos na China e nos EUA onde as empresas já nascem com uma área estruturada de Pesquisa e Desenvolvimento, o que é básico. 

Precisamos expandir as possibilidades quando falamos de tecnologia e saúde. Hoje o mercado de soluções é quase que totalmente voltado à gestão e prontuário eletrônico e tem tanto pra fazer ainda. As pessoas não têm acesso à informação básica ainda, e não temos uma solução na saúde que atenda isso no Brasil, como o Dr. Wilson, um aplicativo que eu conheci no Prêmio Empreenda Saúde e que, através de IA produz informação em texto e voz para o combate e prevenção de 20 doenças consideradas as mais devastadoras da humanidade. Isso resume que para mim, o papel das pequenas empresas é entender como gerar mudança e entregar valor, como eu já disse, na ponta da cadeia da saúde. 

#4 E pequenos negócios? Como clínicas, por exemplo, que não têm recursos e ainda não evoluíram em digitalização podem se movimentar rumo à inovação? 

Bruno Pina: O que eu sinto e conheço de clínicas hoje é que são vários universos, se você pega uma clínica aqui em São Paulo ela é 100% diferente do que é uma clínica do Nordeste. Temos que entender quem é o profissional que tá ali, então voltamos para o ponto da cultura, quem é o gestor e que mentalidade ele tem. Hoje a tecnologia não é mais um problema financeiro quando falamos de capital de negócio, dá pra acessar tecnologia barata, ter um site na internet quase de graça, ou seja, é uma questão de visão. A pessoa que conectar esse perfil de clínicas e criar um marketplace para elas, vai levar negócios para esses caras ao mesmo tempo em que atira em um mercado pulverizado que não tem nenhum tipo de controle.

Os gestores dessas clínicas também têm que entender que elas atuam em um negócio de ecossistema, não existe mais competição entre empresas, as companhias que competem hoje, o fazem porque tem o melhor ecossistema, e é isso que ganha no mercado. Seguindo o modelo de negócio do Alibaba, por exemplo, é empresa comprando empresa e integrando serviços, no mesmo aplicativo você manda mensagem,  compra um seguro e ainda faz telemedicina.

Eu lembro que, quando eu discutia parar de vender remédio na Astrazeneca, me achavam maluco mas, a ideia não era parar de vender caixinha e sim investir na prevenção da pessoa e rentabilizar a medicina preventiva que vai sair bem mais barato para o paciente dando mais lucro para o negócio. A beleza do “não remédio” também tem dinheiro e é a mesma de investir em uma clínica pequena. Apostar na criação de um conjunto de pequenos negócios gera um posicionamento muito mais forte, entrega muito mais valor e impacto na sociedade do que ter um olhar somente direcionado aos grandes. 

Essa é a visão do jogo e até de estratégia nessas empresas, eu olho a ótica financeira pela terceira linha. Na saúde você tem que olhar primeiro pela ótica do impacto, do paciente, da cadeia e aí o dinheiro vem junto, é impossível fazer um bom trabalho na saúde e não ganhar dinheiro, é um setor carente. 

#5 Uma voz entre inovadores e especialistas na saúde é unânime: “atuar na saúde é viver em atraso quando o assunto é inovação, isso é uma característica do setor”. Como a gente muda isso? Imagina que você é a pessoa que tem a caneta decisora na saúde hoje no Brasil, o que faria para superar esse gap? 

Bruno Pina: A primeira coisa é entender o setor da saúde. Eu conheço muitos executivos que romperam as regras, do seu jeito, sou um desses inclusive. O que eu fiz na Astrazeneca está escrito por aí e sempre me perguntam se ela virou uma empresa ágil e a resposta é não, nunca foi e nunca será. É uma empresa que, ao seu modo, adotou inovações. Não dá pra esperar que essas empresas virem um “Nubank” do dia pra noite, é importante puxar a corda até romper, nem que depois você amarre de volta, ali você já gerou uma transformação, ela nunca mais vai ser o que era. 

A saúde é conhecida por ter profissionais com 30, 15 anos de indústria, muitos que nunca saíram dela e essa é outra característica. Então, se eu fosse o manda-chuva, a primeira coisa que eu faria seria inédita: destrancar as portas, abrir espaço para discussões. Hoje a saúde não tem diálogo, conversa aberta e confiança. Esse mercado tem como premissa achar que um lado sempre quer tirar vantagem do outro, por isso eu faria um rebranding da saúde no Brasil, posicionaria ela como o futuro das pessoas. Ainda que sejamos um país continental onde grande parte da população não tem acessos básicos, eu faria isso, daria foco ao SUS, por exemplo. 

Além disso, eu daria voz para pautas estratégicas com as empresas e criaria um ambiente sadio para os disruptores da saúde porque o modelo atual afasta esses profissionais. Eu conheço vários que saíram da saúde porque não aguentaram, eu mesmo já estive no limite e olha que eu amo essa área. Depois da Astrazeneca, eu prometi que nunca mais sairia da saúde, hoje tenho duas startups, a HackMed e a Mais Vida, invisto em saúde, sou mentor, professor de inovação em saúde e vim para o Distrito justamente pra continuar esse trabalho em parceria que fizemos com o hub de inovação do Hospital das Clínicas. 

#6 Você acha que rever os moldes criados na educação básica e no próprio curso de medicina é um caminho? 

Bruno Pina: Sim, sem dúvida essa mudança tem que envolver a academia. Quando eu falo do Hospital das Clínicas, eu falo de todo Complexo Hospitalar que envolve a Faculdade de Medicina da USP e outras.

Já se vê uma mudança, ainda embrionária, mas está começando. Esse mindset resistente vem do viés do médico, eu conheço pessoas de 20 e poucos anos que estão se formando e acham que a tecnologia atrapalha a saúde. Isso é reflexo do estereótipo que se formou em torno do médico que carrega livros grossos por aí e só vê valor na medicina tradicional. As pessoas se inspiram umas nas outras, tem esse perfil, por exemplo, que pessoas seguem e tem outras que seguem profissionais como o Bertalan Mesko, um médico húngaro referência em inovação, que sempre fala de dispositivos tecnológicos para o setor…É a questão de se abrir para possibilidades no seu campo de atuação. 

A saúde só vai mudar se o ambiente mudar também. Precisamos melhorar a perspectiva sobre o que é um profissional médico de sucesso, difundir a ideia de que ele tem que ter tecnologia na veia, programar ou ao menos ter noção de programação. Esse cara vai operar uma máquina que vai fazer cirurgia a distância, se ele não souber tecnologia, o que ele vai fazer da vida? Tem muita coisa pra mudar aí.